Eu deveria te contar das minhas
noites sem dormir, dos sonhos que tenho enquanto caminho nesta desconhecida estrada.
De todas as lágrimas que brilham em meus olhos quando desperto, de todos os
beijos roubados de meros figurantes. Das poesias que nunca escrevi, mas que
estão guardadas em todos os pedaços do meu corpo.
Poderia te contar de nossas
viagens pelos paraísos terrestres, de como sinto o cheiro do teu suor ao
deitar, dos sorrisos que saltam de minha boca quando me pego fantasiando conversas
descabeçadas entre nós dois. Eu poderia descrever o som que meu coração faz
tentando bater, desesperadamente, para manter-se vivo com a infeliz distância
entre os oceanos. Das formas que a fumaça do meu cigarro faz quando estou
sozinha, observando a luz do luar que quase me cega os olhos. Dos vários filmes
assistidos, e que para mim, passaram a ter única interpretação. De quantas
vezes abri o livro que me deu de presente só pra sentir o cheiro. E os
brigadeiros e beijinhos que faço pensando em dividir com você?! E as canções de
Jacques Brel não param de cantarolar nos meus ouvidos... As mentiras que
invento só pra ter certeza que se lembra de mim. Das vezes que despertei com
você me abraçando. Dos personagens que crio para conseguir viver com essa
estranha sensação de partida que me acompanha há alguns anos. Da tatuagem mal
feita que estampa meu ombro e grita para minha carne que tudo ainda sangra. Dos
porres que tomei para anestesiar meus pensamentos quase obsessivos... Se eu
pudesse, te contaria que fingi quando falei que era incapaz de conhecer o amor
– mais uma das várias mentiras criadas por Anita, pobre demônio -. Que passei a
regar as plantas do meu jardim só para te imitar, que eu descobri o horário que
você chegava à casa para te espiar da janela. Eu adorava seu olhar descrente. E
quantas vezes eu fingia estar bêbada só pra ter coragem de te ligar... Esqueci de te contar que Alvar existiu e foi uma
pessoa muito má, e do quanto me sinto ridícula por sentir tudo isso. E até hoje penso que
o quadro no seu quarto retrata uma mulher de biquíni. São tantos os segredos
que minha romântica insanidade esconde, que se eu os vendesse, compraria uma
passagem – sem volta – só pra te ver mais uma vez.
E outra, e outra...
Marina de Oliveira / Anita García









