quinta-feira, 29 de novembro de 2012

o segredo


Eu deveria te contar das minhas noites sem dormir, dos sonhos que tenho enquanto caminho nesta desconhecida estrada. De todas as lágrimas que brilham em meus olhos quando desperto, de todos os beijos roubados de meros figurantes. Das poesias que nunca escrevi, mas que estão guardadas em todos os pedaços do meu corpo.
Poderia te contar de nossas viagens pelos paraísos terrestres, de como sinto o cheiro do teu suor ao deitar, dos sorrisos que saltam de minha boca quando me pego fantasiando conversas descabeçadas entre nós dois. Eu poderia descrever o som que meu coração faz tentando bater, desesperadamente, para manter-se vivo com a infeliz distância entre os oceanos. Das formas que a fumaça do meu cigarro faz quando estou sozinha, observando a luz do luar que quase me cega os olhos. Dos vários filmes assistidos, e que para mim, passaram a ter única interpretação. De quantas vezes abri o livro que me deu de presente só pra sentir o cheiro. E os brigadeiros e beijinhos que faço pensando em dividir com você?! E as canções de Jacques Brel não param de cantarolar nos meus ouvidos... As mentiras que invento só pra ter certeza que se lembra de mim. Das vezes que despertei com você me abraçando. Dos personagens que crio para conseguir viver com essa estranha sensação de partida que me acompanha há alguns anos. Da tatuagem mal feita que estampa meu ombro e grita para minha carne que tudo ainda sangra. Dos porres que tomei para anestesiar meus pensamentos quase obsessivos... Se eu pudesse, te contaria que fingi quando falei que era incapaz de conhecer o amor – mais uma das várias mentiras criadas por Anita, pobre demônio -. Que passei a regar as plantas do meu jardim só para te imitar, que eu descobri o horário que você chegava à casa para te espiar da janela. Eu adorava seu olhar descrente. E quantas vezes eu fingia estar bêbada só pra ter coragem de te ligar... Esqueci de te contar que Alvar existiu e foi uma pessoa muito má, e do quanto me sinto ridícula por sentir tudo isso.  E até hoje penso que o quadro no seu quarto retrata uma mulher de biquíni. São tantos os segredos que minha romântica insanidade esconde, que se eu os vendesse, compraria uma passagem – sem volta – só pra te ver mais uma vez.
E outra, e outra...




Marina de Oliveira / Anita García 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Diafragma


-Tá na hora de dormir menina!
Soprava-me nos ouvidos uma voz distante e firme enquanto eu desfrutava da minha desvairada companhia. Deitada no vazio do mundo, na ante sala do lunático, aguardando o alucinante espetáculo do meu encontro com aquela droga de Rua.  Ao fundo eu a escutava, mas não me importava muito com o que era dito, estava extasiada com a quantidade de palavras que se apresentavam ao som de um tango furioso.
Ela gritava, mas eu já estava dormindo.
Dormindo e caminhando com olhos de fim do mundo pelo meio da noite.




Marina de Oliveira. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

doses de poesia.

Quando questionado sobre a quantidade de álcool ingerida:

-Eu não bebo. Acho tudo tão chato que enlouqueço só de pensar na possibilidade de ver as coisas -e pessoas- duplicadas. O problema mesmo é meu eu lírico. Um alcoólatra de merda. Vive escorado nos poemas abobalhados que escreve.

É um coitado.



Marina de Oliveira

terça-feira, 6 de novembro de 2012

embriaguez hedonista.


Tem coisa melhor do que a mentira desvairada?!
Aquela que sai de mansinho da boca de outrem,
brota dos lábios doces e enganosos
chegando ao pé do ouvido sempre quente,
esvaindo a peculiar umidade dum hálito quase doce.

Ao fundo sente-se o gosto da embriaguez,
uma mistura endiabrada de cachaça e mel.
E mente de tal forma que por vezes me faço
crente dos desatinos e ponho na cara um sorriso
torpe e avermelhado, um olhar dissimulado.
Só pra me fazer de boba.

E minto também. Sempre.
Pra mim principalmente.
Como minha carne num banquete antropofágico,
bebo sangue em taças de vinho e limpo a boca
com guardanapos embebidos num sumo de suor.
Só pra dar risada.

Tem coisa melhor do que a mentira desvairada?!
Que vem sempre acompanhada com uma dose de desejo,
um beijo, um corpo, um copo e nuvens de fumaça.
E arrepia a pele, iludindo os olhos do mentiroso apaixonado.
Que vai embora confiando numa conquista adulterada.

E eu fecho a porta.
Escuto o barulho do gozo.
Dou meia volta
e me deleito num copinho de dor hedonista
que só os mentirosos conhecem.

Então derramo duas lágrimas e invento outra história.
Pra sentir tudo novamente:
Hálito.
Lábios.
Carne.
Suor.
Mentira e cachaça.
(...)




Marina de Oliveira

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ela ficou louca.


Enlouqueceu a pobre coitada,
De tanto se deixar influenciar
Pintou a face e os cabelos com cores
Que não combinam com sua verdade.

Trocou as vestes, a menina.
Se cobre agora com farrapos que distorcem
Ainda mais sua real vaidade.

A menina enlouqueceu,
Emaranhou os cabelos para, subconscientemente,
Despertar mais atenção diante os olhos mortos
De seu primeiro amor.

E era tão bonita...
Passou a dopar-se.
Acostar-se com qualquer ser inferior a ela,
Talvez assim se sentisse um tanto superior.

E vendeu a carne para os alienados.
Perdeu-se com mais um cigarro de maconha,
Fácil de tragar, fácil de olvidar o quão cruel
Foi com si mesma.

Inda por cima despeja as filosofias baratas  
Nos pobres idiotas que a cercam.
- Tem de sentir os cosmos, grita ela.
Que mal sabe a real função da água.

No ápice do desespero ama qualquer
Amiga, qualquer contato.
Talvez seja apenas bondade.

Mas o tempo há de passar e tirar essa tinta da cara.
Para que ela brilhe alva como antigamente.
E eu estarei por perto para ver o primeiro sorriso
Da minha saudosa irmã.

Ela ficou louca.
A culpa foi minha.


Marina de Oliveira

domingo, 28 de outubro de 2012

fato.



O estágio mais avançado da solidão se concretiza no momento em que não há mais falta, tudo se preenche com a companhia do silêncio, que envolto numa nuvem de fumaça mal tragada se comunica através duma tosse rouca e conformada. E arranha a garganta. E vez ou outra engasga com alguns goles de alguma coisa, um pouco mais forte que água.
A solidão é mãe da vida: abriu as pernas e pariu a coitada depois duma foda mal conduzida. Longe de mim ser pessimista, acho que sou uma das pessoas mais esperançosas do mundo; acontece que morreremos sozinhos e não poderemos nos dar ao luxo de sentir falta, de nada. Sendo assim, que o mundo vá embora e me deixe aqui, nua, sem ter gente chata me falando uma porção de baboseiras em doses homeopáticas. Minha estranheza me permite afirmar que a saudade é coisa de gente que não sabe viver, sofrimento desnecessário. A dor é muito sublime para ser compartilhada; por isso, sou só, eu e meu destino embriagado de sonhos que não conseguem mais ficar de pé. Vomitam na cara de quem é perfeito demais, intelectual demais, bonito demais, simpático demais. E depois dá risada. E sai cambaleando contente pelas calçadas esburacadas da nossa cheirosa cidade.  




Marina de Oliveira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ciclo


A Vida é doce.
Mas de tão doce,
Nos deixa enjoados com tamanha doçura.
Mas enjoar é ruim.

O Tempo cura.
Mas o tempo que cura também
Pode ressuscitar o que já foi esquecido,
Eis então, que surge a lembrança.
Acontece que lembrar dói.

A Dor, por sua vez, fortalece.
Mas de tão forte que nos torna.
Faz-nos esquecer a importância
Do amor.
E não amar é sofrer.

O amor é belo.
Mas como tudo que é bonito demais, ilude.
E a ilusão nos transporta para um mundo
De sonhos, onde muitas vezes nos perdemos.

E perder-se,  
É a única forma de conviver
Com a dor das lembranças – e do amor-
Que o tempo nos traz.


Marina de Oliveira

domingo, 29 de julho de 2012

umapoesiafeitacom-quase-todas.


Se eu quisesse falar de amor,
contaria sobre Cecília
e sua superfície clara e cintilante
como as pétalas de uma flor orvalhada.
Falaria do quão reluzente é o seu nome,
que quando toma a superfície, faz amar qualquer ser
que o escute.

Se eu quisesse falar de paixão,
começaria pelas travessuras da menina
Anita, que vive como criança, deita como mulher
e explode a cada amanhecer com as novidades
que inventa; dizem até, que foi ela quem criou
o capricho e suas extravagâncias.
Digo e afirmo: ariana como ela não há...

Mas se o assunto for sabedoria,
ninguém melhor que Zoé para representar...
Ela tem perfume de biblioteca recém inaugurada,
segundo ela, seu mundo é uma poesia de Quintana:
- Eles passarão, eu passarinho!
Sabe ser leve no saber e firme no seu encanto.

Se eu quisesse falar de Marina,
eu continuaria declamando todas essas histórias.
Contaria sobre as meninas
E suas maneiras.
E seus tangos.
E seus livros.
E seus caprichos.
E seus gerânios na janela.
(...)




Marina de Oliveira e...


terça-feira, 17 de julho de 2012

Metro


Está chegando a hora de ir embora novamente...
Enfim, consegui compreender que minha vida
foi feita de partidas.
Estou sempre indo para algum lugar, ou lugar algum;
meu negócio mesmo é ir em frente.

Sempre me despedindo de pessoas que talvez
me despertassem algum sentimento;
acontece que meu tempo é curto demais,
na verdade eu nunca poderei saber
o que elas realmente significaram,
já que o meu destino é ir, ir sem vir.

Não fui feita para ficar,
mesmo que esteja latente o desejo;
minhas pernas sempre seguem adiante,
em passo firme e flutuante para
um novo mundo.

Sou uma cigana fascinada por coisas antigas;
elas me contam a história que eu nunca terei.
Afinal, partir, para mim, é um ato de sobrevivência.
E deixo claro que não se trata de uma fuga,
e sim, de uma busca por novas coisas
que me dêem vontade de fugir.

Sei que tenho que ir, e já está chegando a hora.
Preciso de novos riscos, novos medos,
de mais espaço para minha doce solidão. 
Ela que inebria de fragmentos fantásticos
meu espírito de marinheiro desbravado.

O universo marinístico não aprendeu a cativar forasteiros,
ele me fez absoluta no meu próprio ser.
Sem mais, sem cais,
sem qualquer resquício que me torne um porto seguro,
na verdade, a única coisa que não me descreve
é a segurança de viver estática.

-Minha casa é o mundo de dia,
 e uma matrix a noite...



Marina de Oliveira

domingo, 3 de junho de 2012

Um Crime Imperfeito

Já se faz noite na cidade e eu ainda não consegui
decifrar o momento do meu abandono.
Um abandono ‘descompreendido’ e dissimulado
que cometi no instante em que deixei partir a maior
preciosidade que havia em mim.

Até hoje tento descobrir o momento exato do crime cometido;
dessa forma, talvez, eu conseguisse me enquadrar
em alguma dessas leis que pouco entendo. 
Creio que só assim poderia doar o peso da minha culpa para outrem.
Mas talvez as leis não sejam capazes de julgar os sentimentos...
Fundarei então um escritório com advogados
especializados em incriminar pessoas como eu!

Que na cadencia dos meus devaneios fiz brotar,
alimentei e matei toda esperança de sentir puramente.
Porém, nesse caso, certamente não seria homicídio doloso
e sim legítima defesa.
O passar do tempo me tornou incapaz de viver com a imensidão
dos sentimentos que em mim habitavam.
A vida fez com que eu desacreditasse na capacidade de amar
do homem.

Eu ainda não consegui descobrir o momento exato do meu abandono;
sei que foi desmedido.
Mas não suportava mais viver de amor e dor e dor...
Queria somente saber aonde a vida vai chegar se
a mais rígida pedra não tiver as águas do mar para amolecer...




Marina de Oliveira

Entre o Bem - Mal -.



Você tem olhos de holandês esfaimado,
que me sugam para o inferno turquesa do pecado,
quando me olham com um silêncio quase sufocante
e me leva na direção tortuosa do teu paraíso quente e doce.

Você me serve num banquete antropofágico
e me devora com teus olhos que nunca dizem nada;
capazes de me comer sem sequer me tocar.

Você possui o dom de iludir,
transforma nossos momentos em segundos perfeitos e proibidos,
são instantes sem ar e sem chão.
O que fica ali é somente um pedaço do ser humano
capaz de sobreviver ao seu mundo hostil e fascinante.

É um instante de paz e guerra que me mata, me ilumina;
e ainda me faz crer que está tudo bem,
quando na verdade o mais correto seria permanecer na minha insanidade solitária.
Mas até isso você me rouba...
E me deixa apenas a exceção dos teus olhos azuis.




Marina de Oliveira

Verdade Sobre a Liberdade.

Será que existe a liberdade de verdade?!
Aquela que se faz absoluta no vôo de um pássaro...
Pois na minha realidade, a liberdade é uma deliciosa quimera
que alimenta os sonhos humanos.
Sem a ilusão que ela nos oferece,
creio que viveríamos na eterna ausência de cor.
Na nossa mente, antes de sentir ela mente,
transmuta a permanente irrealidade num passado próximo
e ainda vivo nas arquiteturas da vida.
Na verdade, somos prisioneiros do pensar;
o ser pensante está condenado às ilusões libertárias.
Pois se fosse de verdade, não pertenceria aos seres inteligentes,
donos da mediocridade da empáfia.
Seria sim, entregue aos animais que soubessem viver
e pudessem aproveitar da liberdade inconsequente,
sem descrição e sem manual.
A verdade sobre a liberdade é um sonho que alimento
todos os dias ao despertar,
sem o qual não seria capaz de suportar um segundo sequer nesse mundo...
- A liberdade é a única forma que encontrei para tentar virar passarinho.



Marina de Oliveira

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Menina Baía


Os olhos negros da menina Baía
são como as flechas do mais guerreiro dos índios.
Pobre de quem se arrisca a olhá-los,
Certo será ferido sem vestígio algum de dor,
Pois seus olhos matam apenas com mistério e amor.

A pele dourada da menina Baía
Tem cheiro doce de maracujá com cajá e
perfume tropical de helicônia.
Possui o dom do sincretismo no sangue:
Nasceu na selva dos índios e nas tribos africanas.

O calor de Baía arde mais que chama
de fogueira nordestina em noite de São João.
Ela tem no pé, Forró;
Nas veias, Mapiko;
No coração, Samba;
Na alma o ritmo.

A menina Baía tem hálito de canela,
Suas palavras são capazes
de embriagar toda fauna da floresta Amazônica.
Tem olhar de tigresa,
juba de leão.
Gênio de criança e orgulho de mulher.

Baía é o veneno da flor.
Ela grita a vida de uma forma tão serena
que nem a própria consegue explicar.
Ainda assim, me arrisco e afirmo:
A origem da sua beleza reside nos segundos
que separam Baía do Mar.






Marina de Oliveira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Verdadeira Ausência.


Explica-me a razão da existência,
Pois sem saber de ti
Tornei-me um projeto de ser que não tem voz.

Qual o motivo de esconder-te assim?
Se na verdade, sei que está aqui
E nunca me deixou de verdade,
Que na verdade não sabemos viver
Distantes no tempo.

Afirmo com o pequeno vocabulário que ainda me resta,
Que sem ti sou nada,
Já que compartimos do mesmo corpo e da mesma alma,
Seria impossível a vida sem a cor do nosso dom.

Desculpe-me se te ofendi sendo platéia do mundo (i)real
Mas nós sabemos que a vida é assim,
E juramos nunca nos separarmos...
Mas onde em mim você se encontra?
Que não sinto mais seu desabrochar nos melhores momentos
Da minha inspiração...

Encontra-me nos caminhos de Eldorado,
Ou nas ondas do Mar Morto,
Segura minha mão para que eu possa
Voltar a escrever a nossa história
Nas linhas imaginárias do meu papel.

- Mais difícil do ver a inspiração se esvair nas curvas do tempo, é sentir a impotência diante o medo de nunca mais poder satisfazer a alma com Poesia.




Marina de Oliveira