O estágio mais avançado da solidão se concretiza no momento
em que não há mais falta, tudo se preenche com a companhia do silêncio, que
envolto numa nuvem de fumaça mal tragada se comunica através duma tosse rouca e
conformada. E arranha a garganta. E vez ou outra engasga com alguns goles de
alguma coisa, um pouco mais forte que água.
A solidão é mãe da vida: abriu as pernas e pariu a coitada
depois duma foda mal conduzida. Longe de mim ser pessimista, acho que sou uma
das pessoas mais esperançosas do mundo; acontece que morreremos sozinhos e não
poderemos nos dar ao luxo de sentir falta, de nada. Sendo assim, que o mundo vá
embora e me deixe aqui, nua, sem ter gente chata me falando uma porção de
baboseiras em doses homeopáticas. Minha estranheza me permite afirmar que a saudade
é coisa de gente que não sabe viver, sofrimento desnecessário. A dor é muito
sublime para ser compartilhada; por isso, sou só, eu e meu destino embriagado
de sonhos que não conseguem mais ficar de pé. Vomitam na cara de quem é
perfeito demais, intelectual demais, bonito demais, simpático demais. E depois
dá risada. E sai cambaleando contente pelas calçadas esburacadas da nossa
cheirosa cidade.
Marina de Oliveira

Nenhum comentário:
Postar um comentário