domingo, 14 de abril de 2013

Helena



Helena caminhava de um lado pro outro da sala, fumava um cigarro fedorento e cuspia algumas poesias de Augusto dos Anjos enquanto baforava fumaça no ambiente. Apresentava-me um monólogo quase insuportável enquanto perfurava o chão com seus passos fortes e transtornados. Misturava suas viagens filosóficas com o pré-modernismo literário enquanto eu bebia uns goles de cerveja; àquela altura já estava anestesiado com suas palavras insanas.
Helena tinha uma personalidade forte, não suportava ser interrompida e possuía um amor próprio que nunca me pareceu normal. Eu resmungava de seu comportamento apenas para não perder o costume de ser um pobre coitado, solitário e sem perspectiva de vida. Na verdade ela me despertava uma admiração incomum e uma puta excitação.
Helena dançava com sua estranheza: bebia como um homem, trepava com a luz acesa, falava palavrões que fugiam do meu conhecimento, gargalhava da própria dor e interpretava personagens inimagináveis quando começava a gozar da minha cara. Ao certo eu nunca consegui decifrar o que sentia. Acho que era incapaz de gostar de alguém como de si mesma. Mentia seus romances com uma postura inacreditável.
Eu me contentava com sua loucura e desprezo, sentia um medo infernal de não poder alimentar toda fome daqueles olhos negros...

"...Falas de Amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo..."


Marina de Oliveira / Anita García

domingo, 17 de março de 2013


As pessoas sempre torram o pouco de paciência que tenho. É tanta babaquice que me sinto absoluta na minha solidão. Afinal de contas, se eu mandar todo mundo pro inferno sou considerada chata. Mas na verdade sou mesmo: chata pá caralho!
Parto do princípio de que é melhor ser chata do que ter de aturar esse bando de babacas falando coisas vazias todo o tempo. E enchem meus ouvidos de coisas fúteis. Falam sempre as mesmas coisas e sentem-se o máximo por cheirar cinqüenta carreiras de pó numa noite. Pois que morram de overdose!
Só tem lixo nessa terra e quase nada é reciclável. Há um grande vácuo que separa meu mundo das atitudes humanas disponíveis nesta realidade cibernética. Tudo é construído em cima da perfeição, dos sorrisos, das marcas, da inteligência - quase escassa-, da manipulação de imagens, imagens ocas, pessoas plásticas. Até parece que ninguém suja a roupa quando vomita. Acontece é que todo mundo esquece que debaixo da terra só há putrefação. Estou bêbada e de saco cheio de qualquer coisa que ande sob duas pernas.

- Fodam-se!

...Se tem uma coisa que faço bem é errar. A perfeição sempre me pareceu um porre.


domingo, 10 de março de 2013

lúcia.



Ela estava sentada com as pernas levemente abertas, o short folgado formava uma sombra infernal entre as coxas. Eu não conseguia disfarçar minha cara de cachorro babão olhando aquelas pernas. Na verdade ela estava bêbada e mal podia enxergar um palmo à frente, mantinha os olhos fixos num quadro que ficava atrás do balcão – e tinha cara de não estar entendendo coisa alguma daquela pintura borrada -, apenas sustentava o olhar para manter-se sentada. Eu mirava entre suas pernas e sentia o gosto do vômito que seus olhos disparavam no ambiente hostil, hostil e fascinante, como o emaranhado de seus cabelos.
Ela tinha um tom irritante, suas unhas pretas me causavam enjôo, mas ainda assim não podia parar de fantasiar seus sussurros bêbados e seus seios pequenos em minhas mãos. Eu estava mesmo enlouquecido.
Levantei e fui lhe oferecer um cigarro, ela não me dirigiu a palavra. O segurou com os lábios e tragou a fumaça num orgasmo digressivo. Apagou o cigarro num copo com resto de cerveja, deu risada e ensaiou levantar da cadeira por alguns segundos. Em vão. Teve de se apoiar em meu ombro pra não levar sua carinha de anjo desgarrado ao chão. Retornou à cadeira e falou:
- Não sou de abrir as pernas por um cigarro de merda.
Sua voz se embolava com o hálito de uísque; achei graça do comentário, não tive coragem de contestar, deixei que falasse enquanto eu observava o contorno da sua boca.
Falou meia dúzia de palavras sujas e alguns insultos. Sua loucura me excitava.
Seguimos pela avenida principal, fazia um frio quase insuportável; o que me acalmava era a esperança de ver todos os detalhes por debaixo da calcinha de Lúcia. Exatamente, dentre as palavras escrotas que me falou, seu nome brotou como uma dose de absinto no café da manhã: perfeito.
Lúcia era a personificação da loucura, tinha 19 anos e algumas perversões escondidas em seu corpo poluído de frases alucinógenas. Era o inferno na terra e eu continuava enfiando meus pensamentos debaixo de sua roupa, de seu espírito jovem.
Caminhamos até meu apartamento. Ofereci mais uma dose de alguma coisa que não me lembro agora, eu já estava alto desde a hora que despertei. Ela aceitou. Ao certo toma umas canas pra esquecer o motivo do ódio que esconde em seus olhos fixos e endiabrados.
Sua blusa rasgada completava o ar nonsense de sua existência. Bebemos mais algumas doses, a menina já estava rindo pelas tabelas... Fui ao banheiro dar espaço pra mais algumas biritas.
Quando voltei, Lúcia estava encostada na janela com uma cara quase suicida, e o melhor: sem blusa. Mal sabia meu nome e já tinha arrancado parte de sua roupa, esses excessos da juventude me parecem fantásticos!
Beijei seus lábios, o que me custou um pouco, estava difícil fechar os olhos sem sentir a ausência do chão; mas eram bons, lábios grossos e loucos e alcoólicos.
A menina era louca, transpirava sexo por seus poros, por seus pelos. Beijei seus seios, duros como os da minha primeira namorada, que conheci há algumas décadas...
Puta que pariu! Tanta carne na minha cama e eu pouco sei o que fazer, acho que as pessoas têm razão quando falam que a velhice é como a infância: imprestável.
Lúcia possuía todas as substancias entorpecentes em seu beijo. Que merda! O que uma novinha vai querer com um velho digno de pena que nem eu?!
Sem dúvidas foi a onda mais louca que já tive, melhor que uísque cowboy e torta de doce de leite. Sensacional. Olhava-me com olhos mortos e quentes. Ela não era uma criatura terrestre.

Já estava um tempo sem trepar e tratei de me aproveitar do seu porre de todas as maneiras possíveis. Meu coração não parou por muito pouco, mesmo tonta a doida não cansava.
Levantei pra fumar um cigarro por volta das cinco da manhã. Lúcia, enfim, pegou no sono, parecia uma pedra, dormia como se fosse a última coisa a fazer na vida. Na verdade, mesmo com poucas horas de convivência pude perceber sua intensidade por tudo, fazia as coisas como se fossem únicas, ao certo pensava como eu: não vou durar muito nessa vida. O que nos diferenciava era sua coragem, coisa que nunca tive. Sempre fui um medroso, incapaz de demonstrar qualquer tipo de sentimento.
Deitei-me ao seu lado e ensaiei dormir um pouco, mas sua presença me atordoava, seus olhos grandes até fechados me comiam, me enfrentavam; dificultando inda mais meu descanso.

(...)

Nunca mais beijaria aqueles lábios ácidos. Despertei com a ausência de seu corpo, com um embrulho infernal no estômago, na esperança de encontrá-la saindo do banheiro enrolada na minha toalha esverdeada. Ilusão.
Levantei da cama e fui até a janela. Lúcia desaparecia dentre a neblina daquela tarde desabitada e nem sequer olhou pra trás.  



 Marina de Oliveira / Anita García .

 


domingo, 3 de fevereiro de 2013

cíntia





Já havia desistido de seguir adiante, dedicava meu tempo bêbado às garrafas de vinho que minha última amante esqueceu no apartamento, foi a única coisa realmente admirável que ela me fez nos últimos seis meses.
Enquanto recebia as punhaladas do tempo na minha cara nada agradável, gastava o dinheiro da aposentadoria nos bares e com moças entristecidas que andavam pelas ruas da zona. A essa altura, minha vida era preenchida com essas putas de cara lavada que topavam qualquer coisa por um pouco de pó.
Acordava sempre depois do almoço, bebia alguma coisa e logo ia à varanda observar a vida dessas pessoas que se dizem felizes. Elas me faziam rir, pensar que passei quase toda vida atendendo esses putos cheios de grana que mal sabiam o que era uma boa ressaca. O banco acabou com minha saúde, mas pelo menos me rendeu dinheiro para boas doses de digressão.
Enquanto dava risada de tudo que parecia mais ridículo que minha vida torpe, esperava a jovem Cíntia chegar da aula, ela vinha sempre duas horas da tarde. Morava sozinha e a janela do seu quarto permitia que minha imaginação tomasse rumos tortuosos. Devia ter por volta dos vinte anos, parecia uma daquelas ninfetas de filme pornô: cabelos escuros, pele alva e um corpo de matar um pobre velho como eu em segundos. E já que a morte me parecia interessante, insistia em observá-la...
Podia quase beijar aqueles seios esplendidos, mordiscar os lábios e deleitar-me no calor do sexo jovem que roubava a cena quando esquecia as cortinas abertas. Uma sacana. Tenho quase certeza que fazia de propósito, no fundo devia saber que gozava a suas custas. Era uma delícia, por ela até que deixaria de lado minha embriaguez constante, só pra sentir a violência do seu olhar endiabrado enquanto deslizava minha mão por suas curvas adocicadas.
Enchia a cara para desviar o tempo, lia alguns jornais, espiava da varanda, comia algumas putas, apostava algumas cartas e escrevia alguns sonhos de merda que passavam por minha cabeça quando minha memória resolvia funcionar. Que vidinha, pensava. Melhor do que ficar esquentando a bunda num banco aturando gente chata o dia todo! Pelo menos a velhice me serviu pra alguma coisa: suportar minhas dores de cabeça sem ter de trabalhar, essa vida vulgar sempre me interessou muito...
Numa dessas tardes, enquanto saia para comprar algo pra comer, encontrei com Cíntia. Ela levava algumas compras; muito simpática, me cumprimentou e claro, lhe ofereci ajuda para levar as sacolas até sua casa. Deixei as sacolas na porta de entrada, não ousei transparecer meu desejo de invadir aquele lugar e penetrar nas mais invisíveis entrelinhas daquele espaço. Ela agradeceu docemente explicando que iria fazer algo para jantar e caso eu quisesse, estava convidado. Fiquei extasiado com tal convite, esqueci a comida que ia comprar ao encontrar a moça e voltei pra casa, acendi um cigarro e deitei-me na rede, fiquei um bom tempo pensando numa desculpa para não ir de encontro ao irrecusável. Era certo que queria aproveitar da minha ‘bondade’ para satisfazer seus desejos mais imundos, a cara de santa que tinha nunca me enganou. Além do mais, eu não conseguiria... Aos sessenta, pouca coisa se consegue com uma jovem tão espetacular.
Contentei-me em observar o movimento da casa, as luzes do andar de baixo, o movimento das cortinas, o cair da toalha molhada, podia até sentir o cheiro da comida que preparava, tinha um perfume de páprica picante, como seu hálito.


***

Toquei a campainha e entrei, ela usava um vestido branco e espalhava uma luz impressionante, um anjo dos infernos, que deixava transparecer o contorno de sua intimidade por entre os tecidos de sua roupa. Sentei a mesa e me servi duma taça de vinho tinto, que levei para ser um pouco mais simpático – o que é, para mim, a coisa mais difícil do mundo -. O jantar não estava tão bom quanto os pratos do restaurante Quatre, porém, ficou melhor do que os alimentos que tenho comido desde que a louca me trocou por uma lésbica.
Ela falava sobre fotografia e de sua paixão por Van Gogh. Eu pensava em pornografias. Na terceira garrafa de vinho ela deixava a mostra alguns detalhes enquanto cruzava e descruzava as pernas na poltrona da sala, um escândalo. E eu continuava pensando em pornografias...
A tontura já começava a me atormentar, o peso da idade começa a se fazer presente depois de alguns goles. Levantei-me e fui à mesa colocar mais uma taça, ela acompanhou-me e pediu o isqueiro, enquanto acendia o cigarro me olhava com olhos de serpente esfaimada, fazendo com que minhas pernas tremessem como as de um adolescente abobalhado. A pequena ninfeta pegou sua taça de vinho e derramou no seu decote, com a maior naturalidade do mundo; não pude conter meu nervosismo, fiquei imóvel até que ela me roubou um beijo.
Possuía um hálito explosivo, que misturava sexo, vinho e fumo. Mais letal do que qualquer veneno criado pelo homem. Seu corpo ardia de tal forma que podia ver suas vestes em chamas, viravam cinzas avermelhadas e caiam sobre o tapete oriental que estampava sua sala. Pensei em fugir diversas vezes, mas era impossível, fui envolvido numa embriaguez de prazer e medo transcendente.
Fazia sexo como uma tigresa vinda dos trópicos, exalava um perfume entorpecente, uma criança de pernas doces e língua afiada...
Despertei com um calor insuportável, a rede estava ensopada de suor e a casa da menina Cíntia toda apagada. Ascendi a luz da sala e me deparei com uma mesa impecável, estava posta com talheres finos e taças de cristal. Destampei o prato que se apresentava no centro, lá estava um coração que inda pulsava, retirei-o do recipiente e devorei com rapidez para que o sangue não manchasse o piso. Deleitei-me a cada mordida naquele músculo que tanto me fez sofrer. Enquanto engolia podia gozar com os movimentos que fazia ao atravessar o esôfago, estava vivo e muito saboroso. Sem dúvida, o jantar mais agradável da minha existência!
Após um tempo, durante a digestão, ele começou a pulsar novamente. Cíntia me observava sentada na varanda, estava desnuda e lambia os dedos enquanto sorria. Seus lábios estavam pintados de sangue, e os cabelos mais negros do que nunca.
Caminhei em sua direção: beijei-a e entreguei-me num banquete antropofágico. Inolvidable...



Anita García.