Helena caminhava de um lado
pro outro da sala, fumava um cigarro fedorento e cuspia algumas poesias de
Augusto dos Anjos enquanto baforava fumaça no ambiente. Apresentava-me um
monólogo quase insuportável enquanto perfurava o chão com seus passos fortes e
transtornados. Misturava suas viagens filosóficas com o pré-modernismo
literário enquanto eu bebia uns goles de cerveja; àquela altura já estava
anestesiado com suas palavras insanas.
Helena tinha uma
personalidade forte, não suportava ser interrompida e possuía um amor próprio
que nunca me pareceu normal. Eu resmungava de seu comportamento apenas para não
perder o costume de ser um pobre coitado, solitário e sem perspectiva de vida.
Na verdade ela me despertava uma admiração incomum e uma puta excitação.
Helena dançava com sua
estranheza: bebia como um homem, trepava com a luz acesa, falava palavrões que
fugiam do meu conhecimento, gargalhava da própria dor e interpretava
personagens inimagináveis quando começava a gozar da minha cara. Ao certo eu nunca
consegui decifrar o que sentia. Acho que era incapaz de gostar de alguém como
de si mesma. Mentia seus romances com uma postura inacreditável.
Eu me contentava com sua
loucura e desprezo, sentia um medo infernal de não poder alimentar toda fome
daqueles olhos negros...
"...Falas de Amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo..."
"...Falas de Amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo..."
Marina de Oliveira / Anita
García

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