domingo, 3 de fevereiro de 2013

cíntia





Já havia desistido de seguir adiante, dedicava meu tempo bêbado às garrafas de vinho que minha última amante esqueceu no apartamento, foi a única coisa realmente admirável que ela me fez nos últimos seis meses.
Enquanto recebia as punhaladas do tempo na minha cara nada agradável, gastava o dinheiro da aposentadoria nos bares e com moças entristecidas que andavam pelas ruas da zona. A essa altura, minha vida era preenchida com essas putas de cara lavada que topavam qualquer coisa por um pouco de pó.
Acordava sempre depois do almoço, bebia alguma coisa e logo ia à varanda observar a vida dessas pessoas que se dizem felizes. Elas me faziam rir, pensar que passei quase toda vida atendendo esses putos cheios de grana que mal sabiam o que era uma boa ressaca. O banco acabou com minha saúde, mas pelo menos me rendeu dinheiro para boas doses de digressão.
Enquanto dava risada de tudo que parecia mais ridículo que minha vida torpe, esperava a jovem Cíntia chegar da aula, ela vinha sempre duas horas da tarde. Morava sozinha e a janela do seu quarto permitia que minha imaginação tomasse rumos tortuosos. Devia ter por volta dos vinte anos, parecia uma daquelas ninfetas de filme pornô: cabelos escuros, pele alva e um corpo de matar um pobre velho como eu em segundos. E já que a morte me parecia interessante, insistia em observá-la...
Podia quase beijar aqueles seios esplendidos, mordiscar os lábios e deleitar-me no calor do sexo jovem que roubava a cena quando esquecia as cortinas abertas. Uma sacana. Tenho quase certeza que fazia de propósito, no fundo devia saber que gozava a suas custas. Era uma delícia, por ela até que deixaria de lado minha embriaguez constante, só pra sentir a violência do seu olhar endiabrado enquanto deslizava minha mão por suas curvas adocicadas.
Enchia a cara para desviar o tempo, lia alguns jornais, espiava da varanda, comia algumas putas, apostava algumas cartas e escrevia alguns sonhos de merda que passavam por minha cabeça quando minha memória resolvia funcionar. Que vidinha, pensava. Melhor do que ficar esquentando a bunda num banco aturando gente chata o dia todo! Pelo menos a velhice me serviu pra alguma coisa: suportar minhas dores de cabeça sem ter de trabalhar, essa vida vulgar sempre me interessou muito...
Numa dessas tardes, enquanto saia para comprar algo pra comer, encontrei com Cíntia. Ela levava algumas compras; muito simpática, me cumprimentou e claro, lhe ofereci ajuda para levar as sacolas até sua casa. Deixei as sacolas na porta de entrada, não ousei transparecer meu desejo de invadir aquele lugar e penetrar nas mais invisíveis entrelinhas daquele espaço. Ela agradeceu docemente explicando que iria fazer algo para jantar e caso eu quisesse, estava convidado. Fiquei extasiado com tal convite, esqueci a comida que ia comprar ao encontrar a moça e voltei pra casa, acendi um cigarro e deitei-me na rede, fiquei um bom tempo pensando numa desculpa para não ir de encontro ao irrecusável. Era certo que queria aproveitar da minha ‘bondade’ para satisfazer seus desejos mais imundos, a cara de santa que tinha nunca me enganou. Além do mais, eu não conseguiria... Aos sessenta, pouca coisa se consegue com uma jovem tão espetacular.
Contentei-me em observar o movimento da casa, as luzes do andar de baixo, o movimento das cortinas, o cair da toalha molhada, podia até sentir o cheiro da comida que preparava, tinha um perfume de páprica picante, como seu hálito.


***

Toquei a campainha e entrei, ela usava um vestido branco e espalhava uma luz impressionante, um anjo dos infernos, que deixava transparecer o contorno de sua intimidade por entre os tecidos de sua roupa. Sentei a mesa e me servi duma taça de vinho tinto, que levei para ser um pouco mais simpático – o que é, para mim, a coisa mais difícil do mundo -. O jantar não estava tão bom quanto os pratos do restaurante Quatre, porém, ficou melhor do que os alimentos que tenho comido desde que a louca me trocou por uma lésbica.
Ela falava sobre fotografia e de sua paixão por Van Gogh. Eu pensava em pornografias. Na terceira garrafa de vinho ela deixava a mostra alguns detalhes enquanto cruzava e descruzava as pernas na poltrona da sala, um escândalo. E eu continuava pensando em pornografias...
A tontura já começava a me atormentar, o peso da idade começa a se fazer presente depois de alguns goles. Levantei-me e fui à mesa colocar mais uma taça, ela acompanhou-me e pediu o isqueiro, enquanto acendia o cigarro me olhava com olhos de serpente esfaimada, fazendo com que minhas pernas tremessem como as de um adolescente abobalhado. A pequena ninfeta pegou sua taça de vinho e derramou no seu decote, com a maior naturalidade do mundo; não pude conter meu nervosismo, fiquei imóvel até que ela me roubou um beijo.
Possuía um hálito explosivo, que misturava sexo, vinho e fumo. Mais letal do que qualquer veneno criado pelo homem. Seu corpo ardia de tal forma que podia ver suas vestes em chamas, viravam cinzas avermelhadas e caiam sobre o tapete oriental que estampava sua sala. Pensei em fugir diversas vezes, mas era impossível, fui envolvido numa embriaguez de prazer e medo transcendente.
Fazia sexo como uma tigresa vinda dos trópicos, exalava um perfume entorpecente, uma criança de pernas doces e língua afiada...
Despertei com um calor insuportável, a rede estava ensopada de suor e a casa da menina Cíntia toda apagada. Ascendi a luz da sala e me deparei com uma mesa impecável, estava posta com talheres finos e taças de cristal. Destampei o prato que se apresentava no centro, lá estava um coração que inda pulsava, retirei-o do recipiente e devorei com rapidez para que o sangue não manchasse o piso. Deleitei-me a cada mordida naquele músculo que tanto me fez sofrer. Enquanto engolia podia gozar com os movimentos que fazia ao atravessar o esôfago, estava vivo e muito saboroso. Sem dúvida, o jantar mais agradável da minha existência!
Após um tempo, durante a digestão, ele começou a pulsar novamente. Cíntia me observava sentada na varanda, estava desnuda e lambia os dedos enquanto sorria. Seus lábios estavam pintados de sangue, e os cabelos mais negros do que nunca.
Caminhei em sua direção: beijei-a e entreguei-me num banquete antropofágico. Inolvidable...



Anita García.

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