domingo, 10 de março de 2013

lúcia.



Ela estava sentada com as pernas levemente abertas, o short folgado formava uma sombra infernal entre as coxas. Eu não conseguia disfarçar minha cara de cachorro babão olhando aquelas pernas. Na verdade ela estava bêbada e mal podia enxergar um palmo à frente, mantinha os olhos fixos num quadro que ficava atrás do balcão – e tinha cara de não estar entendendo coisa alguma daquela pintura borrada -, apenas sustentava o olhar para manter-se sentada. Eu mirava entre suas pernas e sentia o gosto do vômito que seus olhos disparavam no ambiente hostil, hostil e fascinante, como o emaranhado de seus cabelos.
Ela tinha um tom irritante, suas unhas pretas me causavam enjôo, mas ainda assim não podia parar de fantasiar seus sussurros bêbados e seus seios pequenos em minhas mãos. Eu estava mesmo enlouquecido.
Levantei e fui lhe oferecer um cigarro, ela não me dirigiu a palavra. O segurou com os lábios e tragou a fumaça num orgasmo digressivo. Apagou o cigarro num copo com resto de cerveja, deu risada e ensaiou levantar da cadeira por alguns segundos. Em vão. Teve de se apoiar em meu ombro pra não levar sua carinha de anjo desgarrado ao chão. Retornou à cadeira e falou:
- Não sou de abrir as pernas por um cigarro de merda.
Sua voz se embolava com o hálito de uísque; achei graça do comentário, não tive coragem de contestar, deixei que falasse enquanto eu observava o contorno da sua boca.
Falou meia dúzia de palavras sujas e alguns insultos. Sua loucura me excitava.
Seguimos pela avenida principal, fazia um frio quase insuportável; o que me acalmava era a esperança de ver todos os detalhes por debaixo da calcinha de Lúcia. Exatamente, dentre as palavras escrotas que me falou, seu nome brotou como uma dose de absinto no café da manhã: perfeito.
Lúcia era a personificação da loucura, tinha 19 anos e algumas perversões escondidas em seu corpo poluído de frases alucinógenas. Era o inferno na terra e eu continuava enfiando meus pensamentos debaixo de sua roupa, de seu espírito jovem.
Caminhamos até meu apartamento. Ofereci mais uma dose de alguma coisa que não me lembro agora, eu já estava alto desde a hora que despertei. Ela aceitou. Ao certo toma umas canas pra esquecer o motivo do ódio que esconde em seus olhos fixos e endiabrados.
Sua blusa rasgada completava o ar nonsense de sua existência. Bebemos mais algumas doses, a menina já estava rindo pelas tabelas... Fui ao banheiro dar espaço pra mais algumas biritas.
Quando voltei, Lúcia estava encostada na janela com uma cara quase suicida, e o melhor: sem blusa. Mal sabia meu nome e já tinha arrancado parte de sua roupa, esses excessos da juventude me parecem fantásticos!
Beijei seus lábios, o que me custou um pouco, estava difícil fechar os olhos sem sentir a ausência do chão; mas eram bons, lábios grossos e loucos e alcoólicos.
A menina era louca, transpirava sexo por seus poros, por seus pelos. Beijei seus seios, duros como os da minha primeira namorada, que conheci há algumas décadas...
Puta que pariu! Tanta carne na minha cama e eu pouco sei o que fazer, acho que as pessoas têm razão quando falam que a velhice é como a infância: imprestável.
Lúcia possuía todas as substancias entorpecentes em seu beijo. Que merda! O que uma novinha vai querer com um velho digno de pena que nem eu?!
Sem dúvidas foi a onda mais louca que já tive, melhor que uísque cowboy e torta de doce de leite. Sensacional. Olhava-me com olhos mortos e quentes. Ela não era uma criatura terrestre.

Já estava um tempo sem trepar e tratei de me aproveitar do seu porre de todas as maneiras possíveis. Meu coração não parou por muito pouco, mesmo tonta a doida não cansava.
Levantei pra fumar um cigarro por volta das cinco da manhã. Lúcia, enfim, pegou no sono, parecia uma pedra, dormia como se fosse a última coisa a fazer na vida. Na verdade, mesmo com poucas horas de convivência pude perceber sua intensidade por tudo, fazia as coisas como se fossem únicas, ao certo pensava como eu: não vou durar muito nessa vida. O que nos diferenciava era sua coragem, coisa que nunca tive. Sempre fui um medroso, incapaz de demonstrar qualquer tipo de sentimento.
Deitei-me ao seu lado e ensaiei dormir um pouco, mas sua presença me atordoava, seus olhos grandes até fechados me comiam, me enfrentavam; dificultando inda mais meu descanso.

(...)

Nunca mais beijaria aqueles lábios ácidos. Despertei com a ausência de seu corpo, com um embrulho infernal no estômago, na esperança de encontrá-la saindo do banheiro enrolada na minha toalha esverdeada. Ilusão.
Levantei da cama e fui até a janela. Lúcia desaparecia dentre a neblina daquela tarde desabitada e nem sequer olhou pra trás.  



 Marina de Oliveira / Anita García .

 


Um comentário:

Anônimo disse...

Lúcia, Anita, Cíntia, Cecília... Quantas mais existem em você?