segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ela ficou louca.


Enlouqueceu a pobre coitada,
De tanto se deixar influenciar
Pintou a face e os cabelos com cores
Que não combinam com sua verdade.

Trocou as vestes, a menina.
Se cobre agora com farrapos que distorcem
Ainda mais sua real vaidade.

A menina enlouqueceu,
Emaranhou os cabelos para, subconscientemente,
Despertar mais atenção diante os olhos mortos
De seu primeiro amor.

E era tão bonita...
Passou a dopar-se.
Acostar-se com qualquer ser inferior a ela,
Talvez assim se sentisse um tanto superior.

E vendeu a carne para os alienados.
Perdeu-se com mais um cigarro de maconha,
Fácil de tragar, fácil de olvidar o quão cruel
Foi com si mesma.

Inda por cima despeja as filosofias baratas  
Nos pobres idiotas que a cercam.
- Tem de sentir os cosmos, grita ela.
Que mal sabe a real função da água.

No ápice do desespero ama qualquer
Amiga, qualquer contato.
Talvez seja apenas bondade.

Mas o tempo há de passar e tirar essa tinta da cara.
Para que ela brilhe alva como antigamente.
E eu estarei por perto para ver o primeiro sorriso
Da minha saudosa irmã.

Ela ficou louca.
A culpa foi minha.


Marina de Oliveira

domingo, 28 de outubro de 2012

fato.



O estágio mais avançado da solidão se concretiza no momento em que não há mais falta, tudo se preenche com a companhia do silêncio, que envolto numa nuvem de fumaça mal tragada se comunica através duma tosse rouca e conformada. E arranha a garganta. E vez ou outra engasga com alguns goles de alguma coisa, um pouco mais forte que água.
A solidão é mãe da vida: abriu as pernas e pariu a coitada depois duma foda mal conduzida. Longe de mim ser pessimista, acho que sou uma das pessoas mais esperançosas do mundo; acontece que morreremos sozinhos e não poderemos nos dar ao luxo de sentir falta, de nada. Sendo assim, que o mundo vá embora e me deixe aqui, nua, sem ter gente chata me falando uma porção de baboseiras em doses homeopáticas. Minha estranheza me permite afirmar que a saudade é coisa de gente que não sabe viver, sofrimento desnecessário. A dor é muito sublime para ser compartilhada; por isso, sou só, eu e meu destino embriagado de sonhos que não conseguem mais ficar de pé. Vomitam na cara de quem é perfeito demais, intelectual demais, bonito demais, simpático demais. E depois dá risada. E sai cambaleando contente pelas calçadas esburacadas da nossa cheirosa cidade.  




Marina de Oliveira