sábado, 23 de outubro de 2010

Melhor não perder tempo...


Preciso encontrar no velho baú as palavras ácidas que costumava utilizar em meus textos. Na verdade, decidi procurá-las com a intenção de retomar o estilo ‘marinístico’da escrita; sem melodramas, sem vocabulário rebuscado, sem maquiagem.
O problema é que já revirei todo baú e não encontrei tema algum que instigasse o ressurgimento destas palavras...
Alguns textos engajados, e por aí vai. Política, fé, meio ambiente, fome, riqueza, capitalismo... Encontrei alguns contos eróticos também, com a mais chula forma da escrita, o que me empolga muito, o naturalismo/realismo é sempre bem vindo para acabar com o moralismo ridículo que encobre a selvageria humana.
Vejamos o que temos mais aqui: um pouco da idiotice romântica das inúmeras paixões, certa ingenuidade – confesso preservá-la longinquamente-, temos aqui quatro anos de puro ‘tempo’ e aventuras inimagináveis, algumas frases literalmente á-ci-das, algumas estrofes bêbadas; tudo isso fruto de um relacionamento entre adolescência e curiosidade demasiada. Acabou.
Entrelinhas multicoloridas. Acredito que não exista ninguém capaz de entender certas coisas aqui encontradas; não duvidando da capacidade interpretativa das pessoas, nunca duvidei, a questão é que nunca acreditei na inteligência dos burros. Desculpa, mas é verdade.
Não confio em quem não utiliza das orgias literárias para compor um bom texto. Essa mania de organização perfeccionista já me encheu o saco. A beleza está na dança das curvas - isso já foi dito por mim, mas é sempre bom reforçar-.
Que porra! Já não agüento mais preservar estes olhares provincianos. O mundo existe, e é deliciosamente antropofágico...
- Mais um cigarro, por favor. Pausa. Em cinco minutos continuarei minha busca neste baú (apesar de não lembrar muito bem o que procuro).
(...)
Achei! Achei a origem dos meus medos: Jurandir, nunca esquecerei este infeliz nome.
Encontrei também a causa dos meus inúmeros pesadelos com piscinas extremamente fundas: Mar Grande, alguém tenta me afogar, de brincadeira, será?!
Bem, deixarei isso para outro momento.
O que temos mais aqui...
Um dos sete pecados mais utilizados pela minha pessoa: Preguiça... Como dizia Caymmi: “Uma chuvinha, redinha, Cotinha, aí piorou, não tô, nem vou...”
Aiii, que sono.
E não vou mesmo, não vou dar ibope ao que me despreza; isso sim é um gostoso cansaço.
Mas quantos sonhos têm aqui! Quantas cores, quantas dores...
-Ei! Todos vocês que estão desperdiçando tempo lendo este descabeçado texto, podem me julgar! Não me importarei.
Imaginar, fantasiar, criticar, falar, digerir... Vamos! Continuem.
Que vou continuar a procurar o jeito ‘marinístico’ de versar, quer dizer, vomitar. Suco gástrico para todo lado, em forma de letras desorganizadas.
Pois é assim que gosto do meu samba, assim que minha amada vida dança.
Amando cada pedaço, odiando cada pedaço também, e tudo junto, no mesmo espaço; nada de separar, homens do lado, mulheres do outro. Na minha escola de samba é todo mundo do mesmo lado.
E assim essa busca se encerra, ela e essa minha mania de viver buscando coisa alguma.
Vou fechando o baú, lentamente...
-Achei! Achei o que não procurava, que espetáculo!
Dois reais no bolso da calça - como é bom encontrar um trocado-, com mais trinta centavos entro num ônibus e vou embora, procurar no mundo.





Marina Oliveira

3 comentários:

Daniela Viegas disse...

Muito bom baby! A pura expressividade que a arte trás através das palavras.. =p E você não perdeu nada, só encontrou coisas e mais coisas novas. Te amo

Anna Karenina de Oliveira disse...

Eu tbm amo. Você é linda, tenho saudades.

F.G. disse...

yo noto una sombra de anita, una presencia detrás de los vómitos de marina. y me gusta.