domingo, 14 de abril de 2013

Helena



Helena caminhava de um lado pro outro da sala, fumava um cigarro fedorento e cuspia algumas poesias de Augusto dos Anjos enquanto baforava fumaça no ambiente. Apresentava-me um monólogo quase insuportável enquanto perfurava o chão com seus passos fortes e transtornados. Misturava suas viagens filosóficas com o pré-modernismo literário enquanto eu bebia uns goles de cerveja; àquela altura já estava anestesiado com suas palavras insanas.
Helena tinha uma personalidade forte, não suportava ser interrompida e possuía um amor próprio que nunca me pareceu normal. Eu resmungava de seu comportamento apenas para não perder o costume de ser um pobre coitado, solitário e sem perspectiva de vida. Na verdade ela me despertava uma admiração incomum e uma puta excitação.
Helena dançava com sua estranheza: bebia como um homem, trepava com a luz acesa, falava palavrões que fugiam do meu conhecimento, gargalhava da própria dor e interpretava personagens inimagináveis quando começava a gozar da minha cara. Ao certo eu nunca consegui decifrar o que sentia. Acho que era incapaz de gostar de alguém como de si mesma. Mentia seus romances com uma postura inacreditável.
Eu me contentava com sua loucura e desprezo, sentia um medo infernal de não poder alimentar toda fome daqueles olhos negros...

"...Falas de Amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo..."


Marina de Oliveira / Anita García

domingo, 17 de março de 2013


As pessoas sempre torram o pouco de paciência que tenho. É tanta babaquice que me sinto absoluta na minha solidão. Afinal de contas, se eu mandar todo mundo pro inferno sou considerada chata. Mas na verdade sou mesmo: chata pá caralho!
Parto do princípio de que é melhor ser chata do que ter de aturar esse bando de babacas falando coisas vazias todo o tempo. E enchem meus ouvidos de coisas fúteis. Falam sempre as mesmas coisas e sentem-se o máximo por cheirar cinqüenta carreiras de pó numa noite. Pois que morram de overdose!
Só tem lixo nessa terra e quase nada é reciclável. Há um grande vácuo que separa meu mundo das atitudes humanas disponíveis nesta realidade cibernética. Tudo é construído em cima da perfeição, dos sorrisos, das marcas, da inteligência - quase escassa-, da manipulação de imagens, imagens ocas, pessoas plásticas. Até parece que ninguém suja a roupa quando vomita. Acontece é que todo mundo esquece que debaixo da terra só há putrefação. Estou bêbada e de saco cheio de qualquer coisa que ande sob duas pernas.

- Fodam-se!

...Se tem uma coisa que faço bem é errar. A perfeição sempre me pareceu um porre.


domingo, 10 de março de 2013

lúcia.



Ela estava sentada com as pernas levemente abertas, o short folgado formava uma sombra infernal entre as coxas. Eu não conseguia disfarçar minha cara de cachorro babão olhando aquelas pernas. Na verdade ela estava bêbada e mal podia enxergar um palmo à frente, mantinha os olhos fixos num quadro que ficava atrás do balcão – e tinha cara de não estar entendendo coisa alguma daquela pintura borrada -, apenas sustentava o olhar para manter-se sentada. Eu mirava entre suas pernas e sentia o gosto do vômito que seus olhos disparavam no ambiente hostil, hostil e fascinante, como o emaranhado de seus cabelos.
Ela tinha um tom irritante, suas unhas pretas me causavam enjôo, mas ainda assim não podia parar de fantasiar seus sussurros bêbados e seus seios pequenos em minhas mãos. Eu estava mesmo enlouquecido.
Levantei e fui lhe oferecer um cigarro, ela não me dirigiu a palavra. O segurou com os lábios e tragou a fumaça num orgasmo digressivo. Apagou o cigarro num copo com resto de cerveja, deu risada e ensaiou levantar da cadeira por alguns segundos. Em vão. Teve de se apoiar em meu ombro pra não levar sua carinha de anjo desgarrado ao chão. Retornou à cadeira e falou:
- Não sou de abrir as pernas por um cigarro de merda.
Sua voz se embolava com o hálito de uísque; achei graça do comentário, não tive coragem de contestar, deixei que falasse enquanto eu observava o contorno da sua boca.
Falou meia dúzia de palavras sujas e alguns insultos. Sua loucura me excitava.
Seguimos pela avenida principal, fazia um frio quase insuportável; o que me acalmava era a esperança de ver todos os detalhes por debaixo da calcinha de Lúcia. Exatamente, dentre as palavras escrotas que me falou, seu nome brotou como uma dose de absinto no café da manhã: perfeito.
Lúcia era a personificação da loucura, tinha 19 anos e algumas perversões escondidas em seu corpo poluído de frases alucinógenas. Era o inferno na terra e eu continuava enfiando meus pensamentos debaixo de sua roupa, de seu espírito jovem.
Caminhamos até meu apartamento. Ofereci mais uma dose de alguma coisa que não me lembro agora, eu já estava alto desde a hora que despertei. Ela aceitou. Ao certo toma umas canas pra esquecer o motivo do ódio que esconde em seus olhos fixos e endiabrados.
Sua blusa rasgada completava o ar nonsense de sua existência. Bebemos mais algumas doses, a menina já estava rindo pelas tabelas... Fui ao banheiro dar espaço pra mais algumas biritas.
Quando voltei, Lúcia estava encostada na janela com uma cara quase suicida, e o melhor: sem blusa. Mal sabia meu nome e já tinha arrancado parte de sua roupa, esses excessos da juventude me parecem fantásticos!
Beijei seus lábios, o que me custou um pouco, estava difícil fechar os olhos sem sentir a ausência do chão; mas eram bons, lábios grossos e loucos e alcoólicos.
A menina era louca, transpirava sexo por seus poros, por seus pelos. Beijei seus seios, duros como os da minha primeira namorada, que conheci há algumas décadas...
Puta que pariu! Tanta carne na minha cama e eu pouco sei o que fazer, acho que as pessoas têm razão quando falam que a velhice é como a infância: imprestável.
Lúcia possuía todas as substancias entorpecentes em seu beijo. Que merda! O que uma novinha vai querer com um velho digno de pena que nem eu?!
Sem dúvidas foi a onda mais louca que já tive, melhor que uísque cowboy e torta de doce de leite. Sensacional. Olhava-me com olhos mortos e quentes. Ela não era uma criatura terrestre.

Já estava um tempo sem trepar e tratei de me aproveitar do seu porre de todas as maneiras possíveis. Meu coração não parou por muito pouco, mesmo tonta a doida não cansava.
Levantei pra fumar um cigarro por volta das cinco da manhã. Lúcia, enfim, pegou no sono, parecia uma pedra, dormia como se fosse a última coisa a fazer na vida. Na verdade, mesmo com poucas horas de convivência pude perceber sua intensidade por tudo, fazia as coisas como se fossem únicas, ao certo pensava como eu: não vou durar muito nessa vida. O que nos diferenciava era sua coragem, coisa que nunca tive. Sempre fui um medroso, incapaz de demonstrar qualquer tipo de sentimento.
Deitei-me ao seu lado e ensaiei dormir um pouco, mas sua presença me atordoava, seus olhos grandes até fechados me comiam, me enfrentavam; dificultando inda mais meu descanso.

(...)

Nunca mais beijaria aqueles lábios ácidos. Despertei com a ausência de seu corpo, com um embrulho infernal no estômago, na esperança de encontrá-la saindo do banheiro enrolada na minha toalha esverdeada. Ilusão.
Levantei da cama e fui até a janela. Lúcia desaparecia dentre a neblina daquela tarde desabitada e nem sequer olhou pra trás.  



 Marina de Oliveira / Anita García .

 


domingo, 3 de fevereiro de 2013

cíntia





Já havia desistido de seguir adiante, dedicava meu tempo bêbado às garrafas de vinho que minha última amante esqueceu no apartamento, foi a única coisa realmente admirável que ela me fez nos últimos seis meses.
Enquanto recebia as punhaladas do tempo na minha cara nada agradável, gastava o dinheiro da aposentadoria nos bares e com moças entristecidas que andavam pelas ruas da zona. A essa altura, minha vida era preenchida com essas putas de cara lavada que topavam qualquer coisa por um pouco de pó.
Acordava sempre depois do almoço, bebia alguma coisa e logo ia à varanda observar a vida dessas pessoas que se dizem felizes. Elas me faziam rir, pensar que passei quase toda vida atendendo esses putos cheios de grana que mal sabiam o que era uma boa ressaca. O banco acabou com minha saúde, mas pelo menos me rendeu dinheiro para boas doses de digressão.
Enquanto dava risada de tudo que parecia mais ridículo que minha vida torpe, esperava a jovem Cíntia chegar da aula, ela vinha sempre duas horas da tarde. Morava sozinha e a janela do seu quarto permitia que minha imaginação tomasse rumos tortuosos. Devia ter por volta dos vinte anos, parecia uma daquelas ninfetas de filme pornô: cabelos escuros, pele alva e um corpo de matar um pobre velho como eu em segundos. E já que a morte me parecia interessante, insistia em observá-la...
Podia quase beijar aqueles seios esplendidos, mordiscar os lábios e deleitar-me no calor do sexo jovem que roubava a cena quando esquecia as cortinas abertas. Uma sacana. Tenho quase certeza que fazia de propósito, no fundo devia saber que gozava a suas custas. Era uma delícia, por ela até que deixaria de lado minha embriaguez constante, só pra sentir a violência do seu olhar endiabrado enquanto deslizava minha mão por suas curvas adocicadas.
Enchia a cara para desviar o tempo, lia alguns jornais, espiava da varanda, comia algumas putas, apostava algumas cartas e escrevia alguns sonhos de merda que passavam por minha cabeça quando minha memória resolvia funcionar. Que vidinha, pensava. Melhor do que ficar esquentando a bunda num banco aturando gente chata o dia todo! Pelo menos a velhice me serviu pra alguma coisa: suportar minhas dores de cabeça sem ter de trabalhar, essa vida vulgar sempre me interessou muito...
Numa dessas tardes, enquanto saia para comprar algo pra comer, encontrei com Cíntia. Ela levava algumas compras; muito simpática, me cumprimentou e claro, lhe ofereci ajuda para levar as sacolas até sua casa. Deixei as sacolas na porta de entrada, não ousei transparecer meu desejo de invadir aquele lugar e penetrar nas mais invisíveis entrelinhas daquele espaço. Ela agradeceu docemente explicando que iria fazer algo para jantar e caso eu quisesse, estava convidado. Fiquei extasiado com tal convite, esqueci a comida que ia comprar ao encontrar a moça e voltei pra casa, acendi um cigarro e deitei-me na rede, fiquei um bom tempo pensando numa desculpa para não ir de encontro ao irrecusável. Era certo que queria aproveitar da minha ‘bondade’ para satisfazer seus desejos mais imundos, a cara de santa que tinha nunca me enganou. Além do mais, eu não conseguiria... Aos sessenta, pouca coisa se consegue com uma jovem tão espetacular.
Contentei-me em observar o movimento da casa, as luzes do andar de baixo, o movimento das cortinas, o cair da toalha molhada, podia até sentir o cheiro da comida que preparava, tinha um perfume de páprica picante, como seu hálito.


***

Toquei a campainha e entrei, ela usava um vestido branco e espalhava uma luz impressionante, um anjo dos infernos, que deixava transparecer o contorno de sua intimidade por entre os tecidos de sua roupa. Sentei a mesa e me servi duma taça de vinho tinto, que levei para ser um pouco mais simpático – o que é, para mim, a coisa mais difícil do mundo -. O jantar não estava tão bom quanto os pratos do restaurante Quatre, porém, ficou melhor do que os alimentos que tenho comido desde que a louca me trocou por uma lésbica.
Ela falava sobre fotografia e de sua paixão por Van Gogh. Eu pensava em pornografias. Na terceira garrafa de vinho ela deixava a mostra alguns detalhes enquanto cruzava e descruzava as pernas na poltrona da sala, um escândalo. E eu continuava pensando em pornografias...
A tontura já começava a me atormentar, o peso da idade começa a se fazer presente depois de alguns goles. Levantei-me e fui à mesa colocar mais uma taça, ela acompanhou-me e pediu o isqueiro, enquanto acendia o cigarro me olhava com olhos de serpente esfaimada, fazendo com que minhas pernas tremessem como as de um adolescente abobalhado. A pequena ninfeta pegou sua taça de vinho e derramou no seu decote, com a maior naturalidade do mundo; não pude conter meu nervosismo, fiquei imóvel até que ela me roubou um beijo.
Possuía um hálito explosivo, que misturava sexo, vinho e fumo. Mais letal do que qualquer veneno criado pelo homem. Seu corpo ardia de tal forma que podia ver suas vestes em chamas, viravam cinzas avermelhadas e caiam sobre o tapete oriental que estampava sua sala. Pensei em fugir diversas vezes, mas era impossível, fui envolvido numa embriaguez de prazer e medo transcendente.
Fazia sexo como uma tigresa vinda dos trópicos, exalava um perfume entorpecente, uma criança de pernas doces e língua afiada...
Despertei com um calor insuportável, a rede estava ensopada de suor e a casa da menina Cíntia toda apagada. Ascendi a luz da sala e me deparei com uma mesa impecável, estava posta com talheres finos e taças de cristal. Destampei o prato que se apresentava no centro, lá estava um coração que inda pulsava, retirei-o do recipiente e devorei com rapidez para que o sangue não manchasse o piso. Deleitei-me a cada mordida naquele músculo que tanto me fez sofrer. Enquanto engolia podia gozar com os movimentos que fazia ao atravessar o esôfago, estava vivo e muito saboroso. Sem dúvida, o jantar mais agradável da minha existência!
Após um tempo, durante a digestão, ele começou a pulsar novamente. Cíntia me observava sentada na varanda, estava desnuda e lambia os dedos enquanto sorria. Seus lábios estavam pintados de sangue, e os cabelos mais negros do que nunca.
Caminhei em sua direção: beijei-a e entreguei-me num banquete antropofágico. Inolvidable...



Anita García.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

o segredo


Eu deveria te contar das minhas noites sem dormir, dos sonhos que tenho enquanto caminho nesta desconhecida estrada. De todas as lágrimas que brilham em meus olhos quando desperto, de todos os beijos roubados de meros figurantes. Das poesias que nunca escrevi, mas que estão guardadas em todos os pedaços do meu corpo.
Poderia te contar de nossas viagens pelos paraísos terrestres, de como sinto o cheiro do teu suor ao deitar, dos sorrisos que saltam de minha boca quando me pego fantasiando conversas descabeçadas entre nós dois. Eu poderia descrever o som que meu coração faz tentando bater, desesperadamente, para manter-se vivo com a infeliz distância entre os oceanos. Das formas que a fumaça do meu cigarro faz quando estou sozinha, observando a luz do luar que quase me cega os olhos. Dos vários filmes assistidos, e que para mim, passaram a ter única interpretação. De quantas vezes abri o livro que me deu de presente só pra sentir o cheiro. E os brigadeiros e beijinhos que faço pensando em dividir com você?! E as canções de Jacques Brel não param de cantarolar nos meus ouvidos... As mentiras que invento só pra ter certeza que se lembra de mim. Das vezes que despertei com você me abraçando. Dos personagens que crio para conseguir viver com essa estranha sensação de partida que me acompanha há alguns anos. Da tatuagem mal feita que estampa meu ombro e grita para minha carne que tudo ainda sangra. Dos porres que tomei para anestesiar meus pensamentos quase obsessivos... Se eu pudesse, te contaria que fingi quando falei que era incapaz de conhecer o amor – mais uma das várias mentiras criadas por Anita, pobre demônio -. Que passei a regar as plantas do meu jardim só para te imitar, que eu descobri o horário que você chegava à casa para te espiar da janela. Eu adorava seu olhar descrente. E quantas vezes eu fingia estar bêbada só pra ter coragem de te ligar... Esqueci de te contar que Alvar existiu e foi uma pessoa muito má, e do quanto me sinto ridícula por sentir tudo isso.  E até hoje penso que o quadro no seu quarto retrata uma mulher de biquíni. São tantos os segredos que minha romântica insanidade esconde, que se eu os vendesse, compraria uma passagem – sem volta – só pra te ver mais uma vez.
E outra, e outra...




Marina de Oliveira / Anita García 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Diafragma


-Tá na hora de dormir menina!
Soprava-me nos ouvidos uma voz distante e firme enquanto eu desfrutava da minha desvairada companhia. Deitada no vazio do mundo, na ante sala do lunático, aguardando o alucinante espetáculo do meu encontro com aquela droga de Rua.  Ao fundo eu a escutava, mas não me importava muito com o que era dito, estava extasiada com a quantidade de palavras que se apresentavam ao som de um tango furioso.
Ela gritava, mas eu já estava dormindo.
Dormindo e caminhando com olhos de fim do mundo pelo meio da noite.




Marina de Oliveira. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

doses de poesia.

Quando questionado sobre a quantidade de álcool ingerida:

-Eu não bebo. Acho tudo tão chato que enlouqueço só de pensar na possibilidade de ver as coisas -e pessoas- duplicadas. O problema mesmo é meu eu lírico. Um alcoólatra de merda. Vive escorado nos poemas abobalhados que escreve.

É um coitado.



Marina de Oliveira

terça-feira, 6 de novembro de 2012

embriaguez hedonista.


Tem coisa melhor do que a mentira desvairada?!
Aquela que sai de mansinho da boca de outrem,
brota dos lábios doces e enganosos
chegando ao pé do ouvido sempre quente,
esvaindo a peculiar umidade dum hálito quase doce.

Ao fundo sente-se o gosto da embriaguez,
uma mistura endiabrada de cachaça e mel.
E mente de tal forma que por vezes me faço
crente dos desatinos e ponho na cara um sorriso
torpe e avermelhado, um olhar dissimulado.
Só pra me fazer de boba.

E minto também. Sempre.
Pra mim principalmente.
Como minha carne num banquete antropofágico,
bebo sangue em taças de vinho e limpo a boca
com guardanapos embebidos num sumo de suor.
Só pra dar risada.

Tem coisa melhor do que a mentira desvairada?!
Que vem sempre acompanhada com uma dose de desejo,
um beijo, um corpo, um copo e nuvens de fumaça.
E arrepia a pele, iludindo os olhos do mentiroso apaixonado.
Que vai embora confiando numa conquista adulterada.

E eu fecho a porta.
Escuto o barulho do gozo.
Dou meia volta
e me deleito num copinho de dor hedonista
que só os mentirosos conhecem.

Então derramo duas lágrimas e invento outra história.
Pra sentir tudo novamente:
Hálito.
Lábios.
Carne.
Suor.
Mentira e cachaça.
(...)




Marina de Oliveira

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ela ficou louca.


Enlouqueceu a pobre coitada,
De tanto se deixar influenciar
Pintou a face e os cabelos com cores
Que não combinam com sua verdade.

Trocou as vestes, a menina.
Se cobre agora com farrapos que distorcem
Ainda mais sua real vaidade.

A menina enlouqueceu,
Emaranhou os cabelos para, subconscientemente,
Despertar mais atenção diante os olhos mortos
De seu primeiro amor.

E era tão bonita...
Passou a dopar-se.
Acostar-se com qualquer ser inferior a ela,
Talvez assim se sentisse um tanto superior.

E vendeu a carne para os alienados.
Perdeu-se com mais um cigarro de maconha,
Fácil de tragar, fácil de olvidar o quão cruel
Foi com si mesma.

Inda por cima despeja as filosofias baratas  
Nos pobres idiotas que a cercam.
- Tem de sentir os cosmos, grita ela.
Que mal sabe a real função da água.

No ápice do desespero ama qualquer
Amiga, qualquer contato.
Talvez seja apenas bondade.

Mas o tempo há de passar e tirar essa tinta da cara.
Para que ela brilhe alva como antigamente.
E eu estarei por perto para ver o primeiro sorriso
Da minha saudosa irmã.

Ela ficou louca.
A culpa foi minha.


Marina de Oliveira

domingo, 28 de outubro de 2012

fato.



O estágio mais avançado da solidão se concretiza no momento em que não há mais falta, tudo se preenche com a companhia do silêncio, que envolto numa nuvem de fumaça mal tragada se comunica através duma tosse rouca e conformada. E arranha a garganta. E vez ou outra engasga com alguns goles de alguma coisa, um pouco mais forte que água.
A solidão é mãe da vida: abriu as pernas e pariu a coitada depois duma foda mal conduzida. Longe de mim ser pessimista, acho que sou uma das pessoas mais esperançosas do mundo; acontece que morreremos sozinhos e não poderemos nos dar ao luxo de sentir falta, de nada. Sendo assim, que o mundo vá embora e me deixe aqui, nua, sem ter gente chata me falando uma porção de baboseiras em doses homeopáticas. Minha estranheza me permite afirmar que a saudade é coisa de gente que não sabe viver, sofrimento desnecessário. A dor é muito sublime para ser compartilhada; por isso, sou só, eu e meu destino embriagado de sonhos que não conseguem mais ficar de pé. Vomitam na cara de quem é perfeito demais, intelectual demais, bonito demais, simpático demais. E depois dá risada. E sai cambaleando contente pelas calçadas esburacadas da nossa cheirosa cidade.  




Marina de Oliveira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ciclo


A Vida é doce.
Mas de tão doce,
Nos deixa enjoados com tamanha doçura.
Mas enjoar é ruim.

O Tempo cura.
Mas o tempo que cura também
Pode ressuscitar o que já foi esquecido,
Eis então, que surge a lembrança.
Acontece que lembrar dói.

A Dor, por sua vez, fortalece.
Mas de tão forte que nos torna.
Faz-nos esquecer a importância
Do amor.
E não amar é sofrer.

O amor é belo.
Mas como tudo que é bonito demais, ilude.
E a ilusão nos transporta para um mundo
De sonhos, onde muitas vezes nos perdemos.

E perder-se,  
É a única forma de conviver
Com a dor das lembranças – e do amor-
Que o tempo nos traz.


Marina de Oliveira

domingo, 29 de julho de 2012

umapoesiafeitacom-quase-todas.


Se eu quisesse falar de amor,
contaria sobre Cecília
e sua superfície clara e cintilante
como as pétalas de uma flor orvalhada.
Falaria do quão reluzente é o seu nome,
que quando toma a superfície, faz amar qualquer ser
que o escute.

Se eu quisesse falar de paixão,
começaria pelas travessuras da menina
Anita, que vive como criança, deita como mulher
e explode a cada amanhecer com as novidades
que inventa; dizem até, que foi ela quem criou
o capricho e suas extravagâncias.
Digo e afirmo: ariana como ela não há...

Mas se o assunto for sabedoria,
ninguém melhor que Zoé para representar...
Ela tem perfume de biblioteca recém inaugurada,
segundo ela, seu mundo é uma poesia de Quintana:
- Eles passarão, eu passarinho!
Sabe ser leve no saber e firme no seu encanto.

Se eu quisesse falar de Marina,
eu continuaria declamando todas essas histórias.
Contaria sobre as meninas
E suas maneiras.
E seus tangos.
E seus livros.
E seus caprichos.
E seus gerânios na janela.
(...)




Marina de Oliveira e...


terça-feira, 17 de julho de 2012

Metro


Está chegando a hora de ir embora novamente...
Enfim, consegui compreender que minha vida
foi feita de partidas.
Estou sempre indo para algum lugar, ou lugar algum;
meu negócio mesmo é ir em frente.

Sempre me despedindo de pessoas que talvez
me despertassem algum sentimento;
acontece que meu tempo é curto demais,
na verdade eu nunca poderei saber
o que elas realmente significaram,
já que o meu destino é ir, ir sem vir.

Não fui feita para ficar,
mesmo que esteja latente o desejo;
minhas pernas sempre seguem adiante,
em passo firme e flutuante para
um novo mundo.

Sou uma cigana fascinada por coisas antigas;
elas me contam a história que eu nunca terei.
Afinal, partir, para mim, é um ato de sobrevivência.
E deixo claro que não se trata de uma fuga,
e sim, de uma busca por novas coisas
que me dêem vontade de fugir.

Sei que tenho que ir, e já está chegando a hora.
Preciso de novos riscos, novos medos,
de mais espaço para minha doce solidão. 
Ela que inebria de fragmentos fantásticos
meu espírito de marinheiro desbravado.

O universo marinístico não aprendeu a cativar forasteiros,
ele me fez absoluta no meu próprio ser.
Sem mais, sem cais,
sem qualquer resquício que me torne um porto seguro,
na verdade, a única coisa que não me descreve
é a segurança de viver estática.

-Minha casa é o mundo de dia,
 e uma matrix a noite...



Marina de Oliveira

domingo, 3 de junho de 2012

Um Crime Imperfeito

Já se faz noite na cidade e eu ainda não consegui
decifrar o momento do meu abandono.
Um abandono ‘descompreendido’ e dissimulado
que cometi no instante em que deixei partir a maior
preciosidade que havia em mim.

Até hoje tento descobrir o momento exato do crime cometido;
dessa forma, talvez, eu conseguisse me enquadrar
em alguma dessas leis que pouco entendo. 
Creio que só assim poderia doar o peso da minha culpa para outrem.
Mas talvez as leis não sejam capazes de julgar os sentimentos...
Fundarei então um escritório com advogados
especializados em incriminar pessoas como eu!

Que na cadencia dos meus devaneios fiz brotar,
alimentei e matei toda esperança de sentir puramente.
Porém, nesse caso, certamente não seria homicídio doloso
e sim legítima defesa.
O passar do tempo me tornou incapaz de viver com a imensidão
dos sentimentos que em mim habitavam.
A vida fez com que eu desacreditasse na capacidade de amar
do homem.

Eu ainda não consegui descobrir o momento exato do meu abandono;
sei que foi desmedido.
Mas não suportava mais viver de amor e dor e dor...
Queria somente saber aonde a vida vai chegar se
a mais rígida pedra não tiver as águas do mar para amolecer...




Marina de Oliveira

Entre o Bem - Mal -.



Você tem olhos de holandês esfaimado,
que me sugam para o inferno turquesa do pecado,
quando me olham com um silêncio quase sufocante
e me leva na direção tortuosa do teu paraíso quente e doce.

Você me serve num banquete antropofágico
e me devora com teus olhos que nunca dizem nada;
capazes de me comer sem sequer me tocar.

Você possui o dom de iludir,
transforma nossos momentos em segundos perfeitos e proibidos,
são instantes sem ar e sem chão.
O que fica ali é somente um pedaço do ser humano
capaz de sobreviver ao seu mundo hostil e fascinante.

É um instante de paz e guerra que me mata, me ilumina;
e ainda me faz crer que está tudo bem,
quando na verdade o mais correto seria permanecer na minha insanidade solitária.
Mas até isso você me rouba...
E me deixa apenas a exceção dos teus olhos azuis.




Marina de Oliveira

Verdade Sobre a Liberdade.

Será que existe a liberdade de verdade?!
Aquela que se faz absoluta no vôo de um pássaro...
Pois na minha realidade, a liberdade é uma deliciosa quimera
que alimenta os sonhos humanos.
Sem a ilusão que ela nos oferece,
creio que viveríamos na eterna ausência de cor.
Na nossa mente, antes de sentir ela mente,
transmuta a permanente irrealidade num passado próximo
e ainda vivo nas arquiteturas da vida.
Na verdade, somos prisioneiros do pensar;
o ser pensante está condenado às ilusões libertárias.
Pois se fosse de verdade, não pertenceria aos seres inteligentes,
donos da mediocridade da empáfia.
Seria sim, entregue aos animais que soubessem viver
e pudessem aproveitar da liberdade inconsequente,
sem descrição e sem manual.
A verdade sobre a liberdade é um sonho que alimento
todos os dias ao despertar,
sem o qual não seria capaz de suportar um segundo sequer nesse mundo...
- A liberdade é a única forma que encontrei para tentar virar passarinho.



Marina de Oliveira

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Menina Baía


Os olhos negros da menina Baía
são como as flechas do mais guerreiro dos índios.
Pobre de quem se arrisca a olhá-los,
Certo será ferido sem vestígio algum de dor,
Pois seus olhos matam apenas com mistério e amor.

A pele dourada da menina Baía
Tem cheiro doce de maracujá com cajá e
perfume tropical de helicônia.
Possui o dom do sincretismo no sangue:
Nasceu na selva dos índios e nas tribos africanas.

O calor de Baía arde mais que chama
de fogueira nordestina em noite de São João.
Ela tem no pé, Forró;
Nas veias, Mapiko;
No coração, Samba;
Na alma o ritmo.

A menina Baía tem hálito de canela,
Suas palavras são capazes
de embriagar toda fauna da floresta Amazônica.
Tem olhar de tigresa,
juba de leão.
Gênio de criança e orgulho de mulher.

Baía é o veneno da flor.
Ela grita a vida de uma forma tão serena
que nem a própria consegue explicar.
Ainda assim, me arrisco e afirmo:
A origem da sua beleza reside nos segundos
que separam Baía do Mar.






Marina de Oliveira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Verdadeira Ausência.


Explica-me a razão da existência,
Pois sem saber de ti
Tornei-me um projeto de ser que não tem voz.

Qual o motivo de esconder-te assim?
Se na verdade, sei que está aqui
E nunca me deixou de verdade,
Que na verdade não sabemos viver
Distantes no tempo.

Afirmo com o pequeno vocabulário que ainda me resta,
Que sem ti sou nada,
Já que compartimos do mesmo corpo e da mesma alma,
Seria impossível a vida sem a cor do nosso dom.

Desculpe-me se te ofendi sendo platéia do mundo (i)real
Mas nós sabemos que a vida é assim,
E juramos nunca nos separarmos...
Mas onde em mim você se encontra?
Que não sinto mais seu desabrochar nos melhores momentos
Da minha inspiração...

Encontra-me nos caminhos de Eldorado,
Ou nas ondas do Mar Morto,
Segura minha mão para que eu possa
Voltar a escrever a nossa história
Nas linhas imaginárias do meu papel.

- Mais difícil do ver a inspiração se esvair nas curvas do tempo, é sentir a impotência diante o medo de nunca mais poder satisfazer a alma com Poesia.




Marina de Oliveira

sábado, 17 de dezembro de 2011

"O Corpo é a Casa"


O texto retrata os diversos segmentos que acabam por influenciar a arquitetura na contemporaneidade; abordando de forma filosófica, científica e artística questões intimamente unidas aos corpos arquitetônicos.
Os parágrafos discorrem sobre um costume herdado da modernidade, onde a sociedade se prende a costumes homogêneos, ou seja, a um mundo de representações, signos e interpretações; mostrando, ao mesmo tempo, como essa herança coexiste com as novas formas da criação.
De acordo com Guattari, o olhar humano ainda está preso aos diversos axiomas sociais; quero dizer que o homem é diariamente influenciado por máquinas sociais. As mass-mídias e suas ferramentas de consumo enchem de imagens o subconsciente social, levando a uma forma homogeneizada e reducionista da percepção visual e afetiva do homem. O autor propõe ainda, uma forma de re-singularizar esses acontecimentos, a partir do momento que podemos utilizar da “evolução maquínica” para criar espaços que possibilitem formas de recompor a representação da corporeidade existente.
É possível perceber uma explosão de acontecimentos imprevisíveis nas cidades, não podemos esquecer as manifestações do ser desterritorializado – nome dado pelo autor para aquele que não se deixa influenciar pelo controle social existente-. A arquitetura pode ser então percebida como a materialização dos movimentos do corpo humanos, um corpo mutante, nômade, que está em constante mudança; não um corpo como objeto exato, mas retratado de forma errante, experimental, tal como ele realmente é.
Atualmente, com a vastidão dos meios tecnológicos, é possível observar o mundo de uma nova forma, de uma forma impessoal, onde os acontecimentos fogem aos sentidos do corpo, ou seja, eles são vividos de uma forma semipresencial. Antes de toda explosão de tecnologia era necessário usufruir os sentidos disponíveis pelo corpo para vivenciar os espaços urbanos, era necessário utilizar o sensorial, o corporal.
Arquitetura e urbanismo podem ser percebidos de uma forma tridimensional, mesclando o real com o virtual; é possível conhecer o mundo através de experiências disponibilizadas por ferramentas da internet, atualmente vivemos divididos entre a comodidade do horizonte cibernético e as experiências reais. Ou seja, damos quase que total prioridade à nossa visão, deixando de lado os outros sentidos oferecidos pelos movimentos do corpo.
Podemos citar como exemplo, em comparação ao texto, o trabalho realizado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que se diz apaixonado pelas curvas, em todos os sentidos, isso é retratado em suas obras que eclodem movimentos. Segundo ele a real beleza existe nas imperfeições das curvas. Isso reafirma a idéia de Paul Virilio, que mostra a arquitetura como revestimento dos corpos, nas formas materiais e espirituais. Virilio ainda se reporta aos estudos de Foucault sobre os manicômios do século XVIII, para concluir o pensamento de que mundo estaria cada vez menor. O estado de enclausuramento deixou de pertencer somente aos manicômios e as prisões, atualmente ele ultrapassa essas paredes e ocupa todo o espaço, o estado de vigília é presente em todos os momentos, ele está inerente as mensagens enviadas pelos meios de comunicação, pela indústria cultural; a alta velocidade em que vivemos nossas vidas expõe-nos a uma eterna instantaneidade, um mundo de imagens sedutoras, de demasiadas informações, um local onde tudo é visto. Segundo Deleuze existe uma “claustrofobia nascente nos jovens que viram tudo antes de ser visto”.
Alguns artistas e arquitetos defendem a idéia de que a arquitetura se transforma assim como o corpo, utilizando o corpo como sujeito, não mais como objeto, retornado a um pensamento onde para se construir é necessário utilizar das sensações, a materialização do corpo é entregue aos impulsos do ânimo, à sua manifestação. Cito como exemplo a pintura Impressionista que buscava explodir o mundo em cores, fugindo completamente dos preceitos do Realismo, que retratava, representava a realidade. Os pintores impressionistas viam o quadro como a obra em si mesma. Em movimento. Assim acontece com os diversos segmentos da arte, inclusive na arquitetura, que deve ser influenciada por movimentos, por uma linguagem antropomórfica; pela dança, através das “coreografias urbanas”; usando e abusando da espontaneidade corporal.
Apesar dessa maneira espontânea de perceber a arquitetura o sociólogo Jean Baudrillard discorreu em “A transparência do mal” sobre os efeitos que influenciam a arquitetura de forma quase predominante em alguns países – principalmente os que possuem problemas de infraestrutura -. Segundo ele a arquitetura sofre de interesses mercadológicos, ela coexiste com a necessidade estética dos grandes centros urbanos, o que leva a uma globalização do estético, do estático.
A arquitetura, assim como as demais expressões artísticas, tende a uma homogeneização, um processo um tanto como psicótico de repetição, de sedução para o consumo através do visual. Contudo, obviamente, as produções artísticas informais coexistem com o star system e com o sistema de persuasão midiático; percebemos um sincretismo entre o automático e o espontâneo, o popular e o sistematizado, a sobrevivência e o mercantil; é através dessa miscigenação de ideias que a sociedade busca sua condição na contemporaneidade, utilizando da naturalidade humana e da estética midiática para sobreviver a grande explosão de experiências oferecida pelo mundo globalizado.



Marina de Oliveira



Comentário sobre o texto "Arquiteturas e Contemporaneidade" de Ariadne Moraes Silva.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O (não) Querer



Teu sopro vai empurrando para fora de órbita os meus olhos,
Que vão assistindo amiúde teu não querer:
Você me quer tão longe
Que nem a linha do horizonte, na sua plenitude, poderia me abrigar.

A presença do teu silêncio me despetala enquanto flor,
Aos poucos me escondo na fria nudez.
-Por que não cuidas do jardim para que eu possa reflorescer?

Também não há correnteza que me leve para onde queres,
Pois não existe neste mundo – nem em outros-
Um lugar tão longe de chegar...

-A tua ausência de lembrança, aos poucos, me emudece.





Marina Oliveira