
O texto retrata os diversos segmentos que acabam por influenciar a arquitetura na contemporaneidade; abordando de forma filosófica, científica e artística questões intimamente unidas aos corpos arquitetônicos.
Os parágrafos discorrem sobre um costume herdado da modernidade, onde a sociedade se prende a costumes homogêneos, ou seja, a um mundo de representações, signos e interpretações; mostrando, ao mesmo tempo, como essa herança coexiste com as novas formas da criação.
De acordo com Guattari, o olhar humano ainda está preso aos diversos axiomas sociais; quero dizer que o homem é diariamente influenciado por máquinas sociais. As mass-mídias e suas ferramentas de consumo enchem de imagens o subconsciente social, levando a uma forma homogeneizada e reducionista da percepção visual e afetiva do homem. O autor propõe ainda, uma forma de re-singularizar esses acontecimentos, a partir do momento que podemos utilizar da “evolução maquínica” para criar espaços que possibilitem formas de recompor a representação da corporeidade existente.
É possível perceber uma explosão de acontecimentos imprevisíveis nas cidades, não podemos esquecer as manifestações do ser desterritorializado – nome dado pelo autor para aquele que não se deixa influenciar pelo controle social existente-. A arquitetura pode ser então percebida como a materialização dos movimentos do corpo humanos, um corpo mutante, nômade, que está em constante mudança; não um corpo como objeto exato, mas retratado de forma errante, experimental, tal como ele realmente é.
Atualmente, com a vastidão dos meios tecnológicos, é possível observar o mundo de uma nova forma, de uma forma impessoal, onde os acontecimentos fogem aos sentidos do corpo, ou seja, eles são vividos de uma forma semipresencial. Antes de toda explosão de tecnologia era necessário usufruir os sentidos disponíveis pelo corpo para vivenciar os espaços urbanos, era necessário utilizar o sensorial, o corporal.
Arquitetura e urbanismo podem ser percebidos de uma forma tridimensional, mesclando o real com o virtual; é possível conhecer o mundo através de experiências disponibilizadas por ferramentas da internet, atualmente vivemos divididos entre a comodidade do horizonte cibernético e as experiências reais. Ou seja, damos quase que total prioridade à nossa visão, deixando de lado os outros sentidos oferecidos pelos movimentos do corpo.
Podemos citar como exemplo, em comparação ao texto, o trabalho realizado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que se diz apaixonado pelas curvas, em todos os sentidos, isso é retratado em suas obras que eclodem movimentos. Segundo ele a real beleza existe nas imperfeições das curvas. Isso reafirma a idéia de Paul Virilio, que mostra a arquitetura como revestimento dos corpos, nas formas materiais e espirituais. Virilio ainda se reporta aos estudos de Foucault sobre os manicômios do século XVIII, para concluir o pensamento de que mundo estaria cada vez menor. O estado de enclausuramento deixou de pertencer somente aos manicômios e as prisões, atualmente ele ultrapassa essas paredes e ocupa todo o espaço, o estado de vigília é presente em todos os momentos, ele está inerente as mensagens enviadas pelos meios de comunicação, pela indústria cultural; a alta velocidade em que vivemos nossas vidas expõe-nos a uma eterna instantaneidade, um mundo de imagens sedutoras, de demasiadas informações, um local onde tudo é visto. Segundo Deleuze existe uma “claustrofobia nascente nos jovens que viram tudo antes de ser visto”.
Alguns artistas e arquitetos defendem a idéia de que a arquitetura se transforma assim como o corpo, utilizando o corpo como sujeito, não mais como objeto, retornado a um pensamento onde para se construir é necessário utilizar das sensações, a materialização do corpo é entregue aos impulsos do ânimo, à sua manifestação. Cito como exemplo a pintura Impressionista que buscava explodir o mundo em cores, fugindo completamente dos preceitos do Realismo, que retratava, representava a realidade. Os pintores impressionistas viam o quadro como a obra em si mesma. Em movimento. Assim acontece com os diversos segmentos da arte, inclusive na arquitetura, que deve ser influenciada por movimentos, por uma linguagem antropomórfica; pela dança, através das “coreografias urbanas”; usando e abusando da espontaneidade corporal.
Apesar dessa maneira espontânea de perceber a arquitetura o sociólogo Jean Baudrillard discorreu em “A transparência do mal” sobre os efeitos que influenciam a arquitetura de forma quase predominante em alguns países – principalmente os que possuem problemas de infraestrutura -. Segundo ele a arquitetura sofre de interesses mercadológicos, ela coexiste com a necessidade estética dos grandes centros urbanos, o que leva a uma globalização do estético, do estático.
A arquitetura, assim como as demais expressões artísticas, tende a uma homogeneização, um processo um tanto como psicótico de repetição, de sedução para o consumo através do visual. Contudo, obviamente, as produções artísticas informais coexistem com o star system e com o sistema de persuasão midiático; percebemos um sincretismo entre o automático e o espontâneo, o popular e o sistematizado, a sobrevivência e o mercantil; é através dessa miscigenação de ideias que a sociedade busca sua condição na contemporaneidade, utilizando da naturalidade humana e da estética midiática para sobreviver a grande explosão de experiências oferecida pelo mundo globalizado.
Marina de Oliveira
Comentário sobre o texto "Arquiteturas e Contemporaneidade" de Ariadne Moraes Silva.